14 dicas para publicar por editoras

 
No meu curso de Roteiro para Quadrinhos, na Quanta – Academia de Arte, falamos de roteiros (claro!), mas não só disso. Ao criar um roteiro, o autor está, ao mesmo tempo, criando um projeto editorial. No roteiro, já estão embutidos a faixa etária dos leitores, o gênero, o número de páginas, o tema… Portanto, não há como falarmos de roteiro sem falarmos também sobre o mercado editorial. Com base nas conversas com os alunos e nas suas principais dúvidas, elaborei aqui algumas dicas que podem ser interessantes a quem quer chegar com sua obra a uma editora:
 
1::
Entenda a outra parte - Uma editora recebe dezenas, centenas de títulos para avaliação por mês. Desses, 99% são obras muito, muito ruins, ou sequer podem ser chamadas de obras. Daí, é difícil que ela avalie propostas que lhe sejam enviadas do nada, sem que ela tenha solicitado ou sem que ela saiba quem é o autor, e é compreensível. Os quadrinhos ainda têm uma pequena vantagem nesse jogo pois, ao contrário de um livro tradicional que precisa ser lido para que se tenha uma primeira impressão (algo que leva tempo), o editor pode bater o olho em uma página de HQ e nesse instante ele já percebe que essa HQ é ou não um trabalho profissional. Mesmo assim, continua valendo: editores recebem muitos projetos, a maior parte ruim. É difícil e desinteressante pra eles avaliar cada proposta que lhes chega. Você vai ter que ser paciente e trabalhar muito na sua estratégia para chegar ao editor.
 
2::
Sintetize – Facilite ao máximo a avaliação da sua obra ou do seu projeto. Lembre-se: o editor não tem tempo a perder. Ele recebe pencas de propostas para avaliar. Ele tem que saber em segundos se vale a pena ou não ler o que você oferece. Portanto, escreva uma apresentação bem resumida. Apresente-se (a si e à obra) em um pequeno parágrafo inicial. Escreva uma sinopse enxuta num segundo parágrafo (não precisa contar como a história começa e termina, só mostre do que se trata a sua HQ). Num terceiro parágrafo, escreva o que você pretende com esse trabalho: qual público quer atingir, se o seu tema tem apelo comercial, enfim: mostre que há um porquê para a editora publicar o seu livro. Por fim, um último parágrafo curtinho com um breve currículo seu. Se isso tudo não ultrapassar 20 linhas, perfeito!
 
3::
Elabore bem o assunto do e-mail - Caso você envie essa apresentação por e-mail, trabalhe bem no assunto da mensagem para que ele capture o interesse do editor instantaneamente, ou o editor a deletará sem mesmo ler seu conteúdo (lembre-se que ele recebe uma penca de e-mails por dia). Não invente moda: apenas seja direto e sucinto. Para vender “Morro da Favela” às editoras europeias, escrevi como assunto: “Biografia em quadrinhos – favela brasileira”. Para “7 Vidas”: “Regressão a Vidas Passadas em Quadrinhos”. Direto ao ponto.
 
4::
Jamais ponha qualidades sobre sua própria obra - Dizer que sua HQ é original, é acima da média, é inovadora ou qualquer outro tipo de auto-elogio é tiro no pé. Soa amador, soa ingênuo. E você dá margem pro editor rebater em pensamento: “original, isso aqui?”
 
5::
Avaliar um livro leva tempo - Leva tempo, algo que o editor não tem (nem ele, nem ninguém). Quando ele conseguir ler o seu projeto, mesmo que ele o aprove, às vezes ele precisa do OK de mais uma ou mais outras pessoas pra dar um sim ou um não ao autor. Portanto, paciência. Escrever uma semana depois ao editor perguntando se ele leu o seu projeto é pedir pra não ser publicado. Demonstra ansiedade, impaciência e amadorismo. Se a editora vale a pena, dê uns quatro meses de prazo.
 
6::
Editoras são empresas, não institutos de caridade - Elas precisam ter lucro para sobreviver. Elas não têm obrigação de dar espaço para o autor novo, para os autores da mesma cidade, para autores de todos os gêneros ou estilos. Você é que tem que mostrar à editora que vale a pena publicar a sua obra.
 
7::
A estratégia de uma editora pode não incluir a sua obra - Isso não é crime. Editoras, em geral, têm linhas editoriais definidas, mais ou menos abertas. Portanto, se você tem um estilo de desenho e de história mais na linha comercial americana, dificilmente uma editora que só publique HQs com estilo pra lá de alternativo vai se interessar pelo seu trabalho. Ninguém está dizendo que ele não é bom, ele só foge do foco da editora.
 
8::
Tamanho não é tudo - Na hora de selecionar as possíveis editoras para o seu primeiro livro, é comum que o autor foque nas editoras grandes e despreze as pequenas. Mas isto é um erro. Lembre-se de que, na editora grande, o seu é mais um entre dezenas de outros lançamentos do mesmo período, e pode ser que ele não esteja no topo das prioridades dela. Já na pequena editora, o seu livro talvez seja o único lançamento do bimestre e a atenção vai toda para ele. A pequena editora lida com menos autores, daí é mais fácil a um autor estreante ter um contato mais estreito com o editor. Mas atenção: não digo que é melhor publicar por editora pequena. Só quero lembrar que pequenas também têm seus prós e grandes também têm seus contras, ao contrário do que parece.
 
9::
Não, a editora não está embolsando 90%,ao contrário do que muitos pensam – As editoras, em geral, pagam aos autores 10% do preço de capa de cada exemplar vendido. Se o seu livro custa R$ 40,00, você receberá R$ 4,00 a cada venda. E os outros R$ 36,00? Uma boa porcentagem disso fica com a distribuidora e com a livraria. A editora também já desembolsou um custo fixo para a impressão da tiragem inteira. Ele já pagou antecipadamente pela impressão de cada exemplar, dos que serão e dos que porventura não serão vendidos. Em muitos casos, a editora pagou ainda, um valor ao autor pela produção, ou deu um adiantamento de suas comissões num valor pré-estipulado. 10% ao autor é injusto? Não vou dizer que sim nem que não, questionamentos são sempre saudáveis. Mas pense que, em muitos casos, a margem da editora pode ser até menor do que a do autor.
 
10::
Faça o seu nome chegar antes ao editor - Se ele já tiver ouvido falar bem do seu trabalho ao receber o seu projeto, é meio caminho andado. Mas como fazer um nome sem nunca ter publicado um livro? De várias formas: com edições independentes, custeadas e divulgadas pelo próprio autor; com HQs publicadas em coletâneas; com quadrinhos online; com uma coluna ou blog sobre quadrinhos… Enfim, não dependa da editora para começar. Ela gosta mais de quem já começou antes.
 
11::
Ideia X mercado - Seu projeto tem que ser condizente com o mercado e com a editora que você contatou. Antes de enviar para a editora um projeto de uma série mensal de 20 edições destinada às bancas de jornais, reflita: há algum projeto nacional assim? (já digo: não). As editoras estão investindo em projetos desse porte? (não!) A editora que você contatou tem esse perfil? Ou ela só publica edições fechadas em formato livro? (Provavelmente.) A sua HQ é bíblica, mas a editora não publica nada desse perfil? Dificilmente sai algo daí.
 
12::
Esteja aberto a outras possibilidades - O editor avaliou logo de cara que a sua obra não se encaixa na linha da editora, mas gostou do seu estilo. Ele pode propor que você trabalhe em um outro projeto totalmente diferente, que atenda aos planos da editora. Avalie a proposta, mesmo que não seja a obra dos seus sonhos. Isso põe você dentro do mercado e abre portas para o título que você queria publicar inicialmente.
 
13::
Não tema o editor - O bom editor é aquele que debate com o autor algumas alterações no livro para que ele fique mais atrativo ao leitor e mais adequado ao mercado. O bom editor não muda o seu trabalho: ele ajuda o autor a torná-lo ainda melhor, sem mudar uma vírgula do seu objetivo ou de suas ideias. Cabe ao autor ouvi-lo de verdade, com toda a liberdade para discordar de um ou outro ponto. Mas nunca se esqueça: o bom editor é seu amigo. Ele quer o melhor para você e para a sua obra.
 
14::
O que mostrar às editoras? - Mostrar apenas um projeto ou a obra toda já pronta? Nos quadrinhos, funciona bem apresentar um resumo do roteiro de uma página, onde a história toda é descrita do começo ao fim, acompanhado de umas seis a dez páginas prontas (desenhadas, finalizadas, letreiradas e, se for o caso, coloridas). No caso de um título que o autor decidiu lançar de um jeito ou de outro, seja por editora, seja independente, pode valer a pena mostrar às editora tendo-se a obra já pronta. Porém, se você está começando, a grande vantagem de mostrar só o projeto, além do tempo poupado, é a oportunidade de ouvir opiniões sobre ele antes de empenhar meses na sua execução. Você tem a oportunidade de alterá-lo caso avalie pertinente as críticas dos editores. Ou mesmo de decidir criar do zero um novo projeto, caso perceba que o primeiro não se encaixa no mercado da forma como você imaginava.
 
Por fim, se você ainda não leu, em 10 Conselhos para Quadrinhistas já foram adiantadas outras dicas sobre editoras.