Dez conselhos para quadrinhistas

Esqueça as editoras como o único caminho. Questione até mesmo se elas são o melhor caminho. Uma parte das editoras brasileiras que estão publicando HQs mal fazem o básico do básico: colocar o livro nas livrarias. Divulgação então, nem pensar. Muitas das HQs que vêm se destacando, ganhando prêmios e repercutindo, servindo de passaporte para as editoras sérias, são edições independentes, bancadas e distribuídas pelos próprios autores, ou mesmo HQs na internet. Se você não avaliar como boa a proposta da editora, ou se você não consegue encontrar os outros títulos dela nas livrarias, ela não tem nada pra lhe oferecer. Mesmo que este seja o seu primeiro livro.

2::
Lembre-se de que o artista brasileiro não apenas compete com o que vem de fora: ele compete com a fina nata do que vem de fora. O quadrinho estrangeiro publicado aqui já mostrou-se um sucesso de vendas ou de crítica pelo mundo e justamente por isso ele foi escolhido pela editora brasileira. O que fracasse lá, fica por lá mesmo. Isso só mostra o quanto temos que dar o melhor e mais um pouco do nosso talento e profissionalismo.

3::
Se o seu quadrinho é igual ao que já faz sucesso, o leitor vai no produto original. Boa ou não, uma HQ vinda da indústria americana ou japonesa foi produzida por profissionais muito bem pagos, ancorados em décadas de marketing, em personagens conhecidos mundialmente, com investimentos pesados, com equipes de profissionais para tratar de cada detalhe do desenvolvimento desse produto, por empresas que são referências mundiais nessa área. Querer fazer uma HQ igual à que vem lá de fora, repetindo seus formatos, seus estilos, abordagens, temas, apelos etc etc, e competir pelo mesmo público, é o mesmo que uma emissora nova de TV do interiorzão do Brasil, sem prática, sem profissionais qualificados, sem orçamento, lançar uma novela que vai passar no mesmo horário das novelas da Globo.

4::
Tamanho não é documento. Tipo de papel também não. Se a sua HQ for boa, ela vai ser reconhecida independentemente do número de páginas, do formato ou do tipo de impressão. Isso é algo maravilhoso desse nosso cenário das HQs brasileiras. Ninguém se impressiona mais com a embalagem. Se o cara é bom, ele é bom.

5::
Frequente os eventos e vá aos lançamentos. Faça cursos. Não tem melhor forma de conhecer a turma da área, de trocar ideias, de aprender. Sem falar que você tá vendo na prática os autores enquanto fazem suas HQs acontecerem.

6::
Olhe mais pra página, olhe menos pro espelho. Nunca caia na armadilha do ego insuflado. Quadrinhista que se acha grandes coisas é tão ridículo como aquela garotinha de nove anos de idade querendo passar batom porque já se acha adolescente. Ou como o moleque de 13 que fuma e se acha mais homem por isso. Mais: você vai fatalmente se prejudicar. Porque quem se acha perfeito não precisa melhorar em nada, daí fica estagnado e o mundo dá voltas, menos ele. O grande artista vai ser aquele que estiver insatisfeito com o seu trabalho mesmo depois de 70 anos de carreira, que continuará procurando onde pode ser melhor. Será aquele que gosta dos elogios mas sabe relativizá-los. Será aquele que está aberto à crítica, ao novo, a opiniões contrárias.

7::
O que você quer dizer com a sua história? Se você não sabe, algo está errado. Se você sabe direitinho, algo está errado também. Se você sente que há uma resposta, se você até sabe responder em parte, mas não sabe exatamente qual é a resposta definitiva, talvez, aí sim, você esteja no caminho certo.

8::
Só lembrando: mesmo depois de finalizada e publicada, a sua HQ ainda não está pronta. Você só fez a metade. A outra metade, quem vai fazer é o leitor. É ele quem vai finalizar a sua história. Não se esqueça de que ele existe, nem despreze o seu papel. Não faça a HQ só para si, ou ela não chegará a lugar algum.

9::
Não subestime o seu leitor. Não precisa explicar tudo. Sim, ele sabe interpretar. Sabe e gosta. Ele quer conversar com a sua história, não ficar calado, ouvindo só você falar, incessantemente, tudo explicadinho. Ele tem reações espontâneas, não precisa que nada o indique que aqui é pra rir ou que aqui é pra sentir medo. Mais: ele pode querer rir de algo na sua história, que você, autor, não fez pra ser engraçado. Ele tem o direito de discordar do seu mocinho. Não o prive desse direito.

10::
Avaliar a sua própria obra é como se ver em uma foto ou ouvir a própria voz num gravador. Soa estranho, tem algo esquisito, é difícil de avaliar. Afinal, estou gordo ou não? Sou assim mesmo ou é só na foto? A minha voz tá muito diferente. Mas por que a voz dos outros está igual? Se alguém trouxer críticas, sugestões ou opiniões sobre a sua obra, ouça. Se ninguém comentar nada, peça que comentem. Não que você deva acatar tudo: vai ter quem ache longa, vai ter quem ache curta. Mas ouça. Só que ouvir na defensiva, preparado pra rebater tudo o que não lhe agradar, não vai adiantar nada. Apenas ouça, caramba!

 

P.S.:

Sobre a primeira dica: não prego contra editoras. Quase tudo o que lancei de 2005 pra cá foi por editoras e continuo fechando novos projetos com outras das quais admiro, e muito, o trabalho. O trabalho de criação, quando trabalhado em conjunto com um bom editor, ganha muito em qualidade. Esqueça esse papo de que “ele quer interferir no meu trabalho”. O bom editor vai fazer com que você continue dizendo exatamente aquilo que queria dizer, mas de forma muito mais eficiente.

Se o melhor caminho será ou não uma editora, depende de cada projeto e do momento do autor. É uma maravilha que as editoras não sejam o único caminho, o que impediria muitos projetos. Talvez não valha a pena esse seu título seguir para uma editora, e talvez valha a pena esse outro. Mas autores novatos, muitas vezes, vêem as editoras como única possibilidade, e não são. Ao contrário do que possa acontecer com outros meios, nem público, nem crítica, vêem a edição independente de quadrinhos como “o último suspiro daquele cara que não foi capaz de conseguir uma editora”. Quadrinhos independentes são um movimento fantástico, pelo qual praticamente todos os quadrinhistas nacionais já passaram ou ainda estão nele.

Dito isso, não atenuo em nada a importância de se pesquisar: vale a pena com essa editora? E reforço a dica: vá no site da editora e veja o que ela lançou recentemente. Depois, sonde nas livrarias. Não tem em nenhuma? Não encontro esses títulos em lugar algum? Não vi os títulos à venda nas lojas especializadas nem nos eventos de quadrinhos? Então, fatalmente, isso vai acontecer com o seu livro também, sinto informar.

Se a editora não põe o seu livro na livraria, você não tem leitor. Você trabalhou pra ninguém. Suas ideias e o seu suor vão ficar trancados em um depósito, apodrecendo. Você não recebe comissão de vendas, porque não houveram vendas. Você não forma novos leitores nem mantém os antigos. Você não ganha prêmios e ninguém vai fazer uma resenha da sua HQ. Você não ouve críticas e não cresce com elas. Você não vê a reação dos seus leitores. Você não vai ter nota no jornal.

“Peraí, a editora gasta imprimindo o livro mas não o põe à venda? Isso não faz sentido”. Não faz mesmo. Mas acontece, e muito. Claro, para uma editora pequena ou média, ainda é difícil ter os livros em todas as principais livrarias do país, isso é quase utópico. Mas o livro tem que ir para algum lugar. Que se trabalhe os livros em eventos, em pontos de venda específicos, ou que se ache uma solução. Os independentes já acharam.

Vale a pena assinar contrato com essa editora? Eu acho que não.