Nos quadrinhos, síntese vale ouro

André Diniz – 4 de fevereiro de 2014

Aquela poesia marcante toca a nossa alma porque sintetiza bem conceitos complexos como o valor da vida, a beleza do mundo e os dilemas do amor em meia dúzia de palavras, palavras que podem definir a razão da existência do leitor. Letras de música, citações, aquela fala que nos marcou em um determinado filme. Quanto mais sintetizam, mais alcançam. Lembra daquele amigo prolixo contando uma piada? Ele explica, dá voltas, descreve, descreve de novo e a piada é um desastre. Conte a mesma piada em duas frases e colha as gargalhadas.

Alguns outros conceitos andam lado a lado com a síntese: clareza, coerência e foco são igualmente imprescindíveis. Um chama ao outro e eles chegam a se misturar, sendo difícil imaginar síntese sem foco, por exemplo. Para sintetizar, o autor precisa saber exatamente que história quer contar e qual o caminho certo, e isso é foco. Passar corretamente a mensagem em poucas imagens ou em poucas palavras é a síntese somada à clareza e chega a ser difícil imaginar uma sem a outra.

Quando se fala na criação de roteiros de quadrinhos, o conceito de síntese deve ser elevado às alturas. Aprendendo a desenvolvê-la, essa será uma das principais armas de um bom roteirista.


SINTETIZAR X RESUMIR

Contudo, aplicar a síntese a uma história não significa simplesmente deixá-la mais curta. Esta será certamente uma consequência positiva, mas não é o objetivo em si. Síntese é falar mais com menos. Menos palavras. Menos páginas. Menos personagens. Menos cenas. Mas não basta reduzir: o segredo é fazer com que cada página valha por dez. Cada fala cumpra um propósito. Cada personagem tenha uma função muito clara, ao menos para o autor.

Pode haver síntese em uma história de mil páginas e cem personagens? Certamente que sim, se de fato houver um porquê para cada página e cada personagem. Se a essência da história a ser escrita pede isso, ela deve, sim, ter mil páginas. E, certamente, se não houvesse uma preocupação com a síntese, essa mesma história teriam 3 mil páginas e 300 personagens, com uma gordura inútil que só poluiria a história a ser contada.

Nada pode sobrar. Não vai fazer falta? Corte. Aquela cena é interessante isoladamente mas não acrescenta nada à sua história? Não se apegue a ela: corte. Um único personagem cumpriria a função daqueles três pensados inicialmente? Então, troque três por um. Aquela fala pode ser reescrita em menos palavras? Sintetize. Aliás, releia o resultado e sintetize de novo.


ROTEIRISTA ESCULTOR

Quando falamos, somos tudo menos objetivos. Usamos dez vezes mais palavras do que seria necessário. Ao escrever, a tendência é repetirmos toda essa redundância. A síntese nunca virá de primeira: deve ser aplicada em cada etapa da criação, uma, duas, três vezes.

Ao criar os personagens, pense se cinco não contariam a mesma história, em vez dos 11 pensados inicialmente. Definindo a sinopse, veja se dá para cortar cenas ou juntar cinco cenas difentes em duas. Ao desenvolver o roteiro, corte o número de cenas, o número de falas, o número de palavras em cada fala.

Faça como o escultor, que começa com um bloco de pedra e vai tirando, tirando, até ter sua obra. Imprima o roteiro que você digitou e vá riscando cenas, palavras, falas inteiras que não farão falta à sua história. Volte ao computador, aplique as modificações ao seu texto e imprima de novo. Repita a lapidação. Você vai se surpreender quanta gordura inútil ainda resta. Repita esse processo três, cinco, dez vezes. A cada releitura, a sua ideia principal, aquilo que você de fato tem a contar, estará mais perto do leitor e o tocará mais fortemente.

Exemplo de página sem síntese e a mesma página a seguir, após o trabalho de síntese: